sábado, 25 de maio de 2013

ESTRATÉGIAS DE GEOCONSERVAÇÃO. GEOPARQUES E GEOTURISMO


“Nós e a Terra compartilhamos uma herança comum. Cada homem, cada governo não é mais do que o depositário desse património. Cada um de nós deve compreender que qualquer depredação é uma mutilação, uma destruição, uma perda irremediável. Todas as formas do desenvolvimento devem, assim, ter em conta o valor e a singularidade desse património.”
8º Princípio da Declaração de Digne – Declaração Internacional sobre os Direitos da Memória da Terra, 1991

“Fará sentido em termos de conservação, reduzir a Natureza à sua componente viva? […] Será que somente a biodiversidade necessita de medidas de conservação?” 
Brilha (s.d 1)
           

ESTRATÉGIAS DE GEOCONSERVAÇÃO

A Geoconservação consiste na proteção, “conservação e gestão do Património Geológico e processos naturais a ele associados” (Brilha, 2005), como sinónimo do conceito de Geoconservação pode utilizar-se a expressão Conservação do Património Geológico.

Seguindo a ideia de Sharples (2002), a geoconservação atenta a abordagem à gestão da conservação das rochas, paisagens e solos, perspetiva que reconhece que a geodiversidade tem valores na conservação da Natureza. Para este autor, a geoconservação tem como intuito preservar a diversidade natural abiótica, isto é, a geodiversidade de aspetos geológicos (substrato), geomorfológicos (paisagem) e do solo, mantendo a evolução e intensidade naturais de mudança desses aspetos e processos. Desta forma, os objetivos da geoconservação são a manutenção da geodiversidade e a manutenção da evolução e intensidade naturais de mudança.

Parece-me importante referenciarmos que a necessidade da geoconservação, se relaciona com os inúmeros valores que geodiversidade integra (que foram analisados em postagem anterior), tornando-se por isso imperativo conservar a geodiversidade face às inúmeras ameaças (algumas das ameaças anteriormente analisadas na intervenção efetuada). 

Finalmente a geoconservação começa a ser considerada seriamente porque é impossível ter uma estratégia sensata de ordenamento do território que ignore os aspetos físicos do ambiente (topografia, solo, processos físicos) (Gray, 2005).

Uma vez que aparece supra referido o conceito de Património Geológico, convém esclarecer que este segundo Brilha (2005) “é definido como o conjunto dos geossítios inventariados e caracterizados numa dada área”. Outro conceito que merece esclarecimento é Geossítio, definido pelo mesmo autor como a “ocorrência de um ou mais elementos da geodiversidade (aflorantes quer em resultado da acção de processos naturais, quer devido à intervenção humana), bem delimitado geograficamente e que apresente valor singular do ponto de vista científico, pedagógico, cultural, turístico, ou outro” (Brilha, 2005).

Para que a Geoconservação seja uma realidade concretizável é necessária a implementação de estratégias que assegurem a efetiva conservação e gestão do Património Geológico. É assim fundamental a implementação de uma metodologia com a génese na inventariação dos geossítios, seguindo-se a sua quantificação, classificação, conservação, valorização e divulgação e, por fim, a monitorização (Brilha, 2005).
Vamos então explorar as diferentes etapas da metodologia proposta no livro “Património Geológico e Conservação: A Conservação da Natureza na sua Vertente Geológica”, de José Brilha (2005):


Inventariação

A inventariação de geossítios corresponde à primeira etapa da metodologia, devendo nesta fase ser efetuado um levantamento sistemático, em toda a área em estudo, depois da conclusão do reconhecimento dos locais potencialmente relevantes. Nesta fase, os geossítios devem ser devidamente assinalados numa carta topográfica e/ou geológica, além da inventariação de campo deve haver um complemento efetuado com a consulta de bibliografia especializada sobre a área em estudo.


Quantificação

Com a quantificação pretende-se determinar a relevância dos geossítios inventariados, por forma a seriá-los com base em determinados critérios pré-estabelecidos (intrínsecos ao geossítio, relacionados com o seu uso potencial e com a necessidade de proteção do geossítio).
A quantificação da relevância dos geossítios inventariados tem importância na medida que permite seriar o conjunto de locais selecionados com base em determinados critérios pré-estabelecidos. Podendo o cálculo da relevância ser efetuado através de uma quantificação relativa (baseada na opinião de especialistas que conhecem a área em análise e o tipo de geossítios em questão), ou através de uma quantificação numérica (baseada num conjunto de critérios: intrínsecos ao geossítio, relacionados com o seu uso potencial e com a necessidade de proteção do geossítio).


Classificação

Os geossítios que obtiverem uma maior relevância devem ser propostos para classificação, de acordo com o enquadramento legal existente, podendo a classificação ser feita ao nível nacional, regional, local e municipal. Pode consultar o “Enquadramento legal de suporte à protecção do património geológico em Portugal” em http://repositorium.sdum.uminho.pt/bitstream/1822/10570/1/Brilha_2010.pdf) 


Conservação

Como a classificação de geossítios não é sinónimo que a sua proteção e conservação esteja assegurada, a conservação torna-se muito importante. A conservação de geossítios deverá orientar-se para manter a integridade física do geossítio, e paralelamente, assegurar acessibilidade ao público.  


Valorização e divulgação

Esta etapa deve ser também considerada na definição de uma estratégia de Geoconservação. “Independentemente da sua relevância e do âmbito em que se inserem, os geossítios que apresentam uma baixa vulnerabilidade de degradação ou perda são os que se encontram em melhores condições para poderem ser alvo de estratégias de valorização e divulgação. Estes geossítios são ideais para serem integrados em percursos e roteiros turísticos, assim como em acções de divulgação geocientíficas e / ou ambiental. Os geossítios com elevada vulnerabilidade apenas devem ser divulgados após estarem asseguradas as necessárias condições de protecção e conservação” (Brilha, 2005)


Monitorização

A última etapa de uma estratégia de geoconservação pode considerar-se, provavelmente,  uma das mais importantes. Sendo muito importante verificar e analisar a evolução do estado de conservação dos geossítios ao longo do tempo, quer por processos naturais (ex. meteorização), quer por causas antrópicas (ex. roubo de fósseis). Certamente que todos os geossítios vão sofrendo degradação, o que torna necessário uma monitorização anual dos mesmos. Esta monitorização do estado de conservação dos geossítios poderá levar à redefinição de toda a estratégia de geoconservação, por forma a, garantir a manutenção do seu valor máximo de relevância (a efetuar através do desenvolvimento de ações).


LEGISLAÇÃO DA CONSERVAÇÃO DA NATUREZA

A legislação publicada em Portugal, no respeitante à Conservação da Natureza remete-nos para uma preocupação crescente com a proteção do património geológico. O regime jurídico da Conservação da Natureza e da Biodiversidade em vigor (o Decreto-Lei n.º 142/2008 de 24 de julho, que veio substituir e revogar o Decreto-Lei n.º 19/93 de 23 de janeiro - de criação da Rede Nacional de Áreas Protegidas), apresenta o objetivo de "promover o reconhecimento pela sociedade do valor patrimonial, inter-geracional, económico e social da biodiversidade e do património geológico”, inserindo claramente o património geológico na definição de áreas protegidas.

Ao abrigo desta legislação, as figuras de proteção que contemplam, em concreto, o património geológico e os geossítios são:
“Artigo 16.º
Parque Nacional
1 — [...] área que contenha maioritariamente amostras representativas de regiões naturais características, de paisagens naturais e humanizadas, de elementos de biodiversidade e de geossítios, com valor científico, ecológico ou educativo.
Artigo 18.º
Reserva Natural
1 — [...] área que contenha características ecológicas, geológicas e fisiográficas, ou outro tipo de atributos com valor científico, ecológico ou educativo, e que não se encontre habitada de forma permanente ou significativa.
a) [...] geossítios em estado de conservação favorável;
Artigo 20.º
Monumento Natural
1 — [...] ocorrência natural contendo um ou mais aspectos que, pela sua singularidade, raridade ou representatividade em termos ecológicos, estéticos, científicos e culturais, exigem a sua conservação e a manutenção da sua integridade.
2 — A classificação de um Monumento Natural visa a protecção dos valores naturais, nomeadamente ocorrências notáveis do património geológico [...]”.

De acordo com o verificado, as figuras de Parque Nacional, Reserva Natural e Monumento Natural integram aspetos os geológicos da natureza, pelo que podem ser utilizadas para a classificação de áreas detentoras de valores de geodiversidade. As figuras de Parque Nacional e Reserva Natural fazem referência aos geossítios e a figura do Monumento Natural alude diretamente ao património geológico português.

É o Decreto-Lei n.º 142/2008 de 24 de julho, que consagra a figura de Geoparque, com caráter supranacional.


GEOPARQUES E GEOTURISMO

Os Geoparques podem constituir importantes instrumentos na concretização do desenvolvimento sustentável (Brilha, 2005). “Um geoparque é uma área em que se conjuga a Geoconservação e o desenvolvimento económico sustentável das populações que a habitam. Procura-se estimular a criação de actividades económicas suportadas na geodiversidade da região, com o envolvimento empenhado das comunidades locais.” (Brilha, 2005)

Exemplo do Geoparque de Arouca, uma intervenção de Margarida Belém: 


O conceito geoturismo, começou a ser utilizado nos anos 90 do século passado, sendo que Hose (2008) citado por Lopes et al. (2011), o definiu como “a provisão de serviços e facilidades interpretativas que permitam aos turistas adquirirem conhecimento e entendimento sobre a geologia e geomorfologia de um sítio (incluindo sua contribuição para o desenvolvimento das Ciências da Terra), além da mera apreciação estética”. Mais tarde, o referido autor reconceituou geoturismo,  acrescentando a este “a necessidade de, além de prover serviços e facilidades interpretativas, também promover os valores e os benefícios sociais dos lugares.” (Lopes et al., 2011)

No artigo: “Geoturismo: Estratégia de Geoconservação e de Desenvolvimento Local” surgem cinco princípios base para que se verifique um verdadeiro geoturismo, assim apontam-se os princípios chave definidos por Dowling (2009), e referenciados em Lopes et al. (2001):

Base no patrimônio geológico: o geoturismo tem como base o patrimônio geológico da Terra, focando as suas formas e processos, essenciais para o planejamento,  desenvolvimento e gestão da atividade; ao contrário do ecoturismo, que depende de uma configuração natural, o geoturismo pode ocorrer em ambientes urbanos; 

Sustentabilidade: promover a viabilidade econômica, a melhoria da qualidade de vida das comunidades e a geoconservação; 

Informação geológica: o geoturismo atrai as pessoas que desejam interagir com o 
ambiente terrestre a fim de desenvolver seu conhecimento, conscientização e valorização do mesmo. A utilização de meios interpretativos e educativos é fundamental na atividade geoturística; 

Beneficiamento local: o envolvimento das comunidades locais na gestão da atividade não só beneficia a comunidade e o meio ambiente como também melhora a qualidade da experiência turística; 

Satisfação do turista: a satisfação dos visitantes é fundamental para a viabilidade do geoturismo em longo prazo; nesse conceito está incluída a segurança, a qualidade das informações e dos serviços prestados.”

Brilha (2005) refere que apesar da National Geographic Society (NGS) considerar o geoturismo com um caráter geográfico, este deve procurar minimizar o impacte ambiental e cultural exercido sobre os locais e as populações, com base nos seguintes princípios:
- Respeitar os destinos turísticos pela aplicação de estratégias de gestão de modo a evitar modificações nos habitats naturais, no património cultural e paisagístico e na cultura local;
- Conservar os recursos e minimizar a poluição, o lixo, o consumo energético e o uso de água;
- Respeitar a cultura local e tradições;
- Promover a qualidade em detrimento de quantidade.
O respeito por estes princípios traz vantagens a longo prazo e mais-valias relativamente ao “turismo tradicional”.

Para finalizar apresenta-se no vídeo seguinte a definição de Geoturismo segundo a declaração de Arouca:



Referências bibliográficas

Brilha, José (s.d.1). Património geológico: um novo modo de entender a conservação da natureza. IV Jornadas internacionais de Vulcanologia da Ilha do Pico. Acedido a 04.05.2013 em http://repositorium.sdum.uminho.pt/bitstream/1822/4892/1/pico.pdf

Brilha, José (s.d 2). A geoconservação e a educação para a sustentabilidade. Paisagens educativas. Acedido a 04.05.2013 em http://www.aspea.org/18ResumoGeoconservacao.pdf 

Brilha, José. (2005) Património Geológico e Conservação: A Conservação da Natureza na sua Vertente Geológica. Braga: Palimage Editores. Disponível em http://www.dct.uminho.pt/docentes/pdfs/jb_livro.pdf. Acedido a 6 de Maio de 2013.

Decreto-Lei n.º 142/2008 de 24 de julho
Decreto-Lei n.º 19/93 de 23 de janeiro
Gray, Murray (2005). Geodiversity and Geoconservation: What, Why, and How?. The George Wright Forum. V.L. Santucci (Ed.). Volume 22, N.º 3, pp. 4 – 12.

Lopes, Laryssa; Araújo, José; Castro, Alberto (2011 ).Geoturismo: Estratégia de Geoconservação e de Desenvolvimento Local. Caderno de Geografia. V.21. Nº35, pp. 1-11

Nieto, L. M. (2002). Patrimonio Geológico, Cultura Y Turismo. Boletín del Inst. de Estudios
Giennenses. Nº 182, pp. 109-122. Acedido a 21.05.2013 em http://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo?codigo=1146992

Pereira D., Brilha J., Pereira P., (2008). Geodiversidade valores e usos. Braga: Universidade do Minho. Acedido a 11.05.2013 em http://www.dct.uminho.pt/docentes/pdfs/jb_pereiras

Resolução do Conselho de Ministros nº 53/2007 de 4 de abril

Sharples, C. (2002). Concepts and principles of geoconservation. Acedido a 12.05.2013 em http://www.dpiw.tas.gov.au/inter.nsf/Attachments/SJON-57W3YM/$FILE/geoconservation.pdf

Silva, Cassio Roberto da (2008). Geodiversidade do Brasil: conhecer o passado, para entender o presente e prever o futuro.  PlanetaTerra: Ciências da Terra para a Sociedade. Rio de Janeiro: CPRM

Vídeo 1. O geoparque de Arouca. Acedido a 22.05.2013 em https://www.youtube.com/watch?v=cncNoqYJz-Y


Vídeo 2. Congresso Internacional de Geoturismo. Acedido a 24.05.2013 em https://www.youtube.com/watch?v=rS1tkYhMUX8

domingo, 19 de maio de 2013

GEODIVERSIDADE, CRITÉRIOS DE VALORIZAÇÃO. AMEAÇAS À GEODIVERSIDADE.




“Não estarão o mundo biótico e abiótico inexoravelmente interligados?”
Brilha (s.d 1)

“Assim como uma árvore guarda a memória do seu crescimento e da sua vida no seu tronco, também a Terra conserva a memória do seu passado, registada em profundidade ou à superfície, nas rochas, nos fósseis e nas paisagens, registo esse que pode ser lido e traduzido.”
6º Princípio da Declaração de Digne – Declaração Internacional sobre os Direitos da Memória da Terra, 1991

“os Homo sapiens sapiens causam, actualmente, uma enorme pressão nos sistemas de suporte de vida do planeta
Brilha (s.d 2) 

Iniciamos neste espaço a temática geodiversidade, e desde já parece-me premente dar a conhecer que a importância da geodiversidade (do grego gê, terra + do latim diversitate, diversidade) não é menor que a importância da biodiversidade (que analisámos anteriormente), e em 2001 Mick Stanley afirmava que a “biodiversidade faz parte da geodiversidade”. 
A biodiversidade está assente sobre a geodiversidade, e nesse sentido, “é dependente direta desta, pois as rochas, quando intemperizadas, juntamente com o relevo e clima, contribuem para a formação dos solos, disponibilizando, assim, nutrientes e micronutrientes, os quais são absorvidos pelas plantas, sustentando e desenvolvendo a vida no planeta Terra”. (Silva, 2008)
Geodiversidade e biodiversidade dependem uma da outra e interagem mutuamente, procurando o planeta nesse balanço, um equilíbrio. Se objetivarmos a importância da geodiversidade para o Homem, facilmente se conclui que este esteve sempre dependente dela, sendo mesmo determinante para evolução da civilização humana (Pereira et al., 2008).


GEODIVERSIDADE

O surgimento do conceito geodiversidade é relativamente recente, ao longo dos tempos, a geodiversidade  comparativamente à biodiversidade tem tido um menor reconhecimento por parte de políticos, gestores ou técnicos (Gray, 2004). Aparecendo o conceito durante a década de noventa (em artigos na Austrália) para descrever a variedade do meio abiótico, e logo foi seguido em muitos outros países (Gray, 2004).

Quanto à definição de geodiversidade, são vários os autores que têm dado a sua contribuição. É possível definir geodiversidade, segundo Nieto (2001), como o número e a variedade de estruturas (sedimentares, tectónicas, geomorfológicas, hidrogeológicas e petrológicas) e de materiais geológicos (minerais, rochas, fósseis e solos) que constituem o substrato físico natural de uma região, sobre o qual assenta a atividade orgânica, incluindo a antrópica. A geodiversidade definida por Stanley (2004), é o resultado de processos interativos dinâmicos, que envolvem a paisagem, fauna, flora e as culturas humanas, que ditaram os locais onde as pessoas se fixaram e desenvolveram aldeias, vilas, cidades, indústrias, estradas e a forma como os recursos foram utilizados. Nesta conceção de geodiversidade, as paisagens naturais, compreendidas como a variedade de ambientes e processos geológicos, estariam relacionadas ao seu povo e à sua cultura. Dessa forma, Stanley estabelece uma interação entre a diversidade natural dos terrenos (compreendida como uma combinação de rochas, minerais, relevo e solos) e a sociedade, em uma aproximação com o clássico conceito la blacheano de ‘género de vida’ (Silva, 2008). Segundo Gray (2004), a geodiversidade consiste na variedade de aspetos geológicos (fósseis, rochas e minerais), geomorfológicos (geoformas e processos) e do solo. Inclui coleções, relações, propriedades, interpretações e sistemas. Quanto à definição da Sociedade Real para a Conservação da Natureza do Reino Unido tem em conta a “variedade de ambientes geológicos, fenómenos e processos activos que dão origem a paisagens, rochas, minerais, fósseis, solos e outros depósitos superficiais que são o suporte para a vida na Terra” (Brilha, 2005). 

Apesar de diferenças na abrangência do conceito, salienta-se o facto das definições apresentadas integrarem no conceito de geodiversidade os seres vivos. Entendendo-se, que a geodiversidade não inclui apenas a componente abiótica do nosso planeta mas também a biótica.


 Fonte: Silva, 2008


VALORES ATRIBUÍDOS À GEODIVERSIDADE

A atribuição de quaisquer valores à geodiversidade, quer sejam intrínsecos, culturais, estéticos, económicos, funcionais, científicos ou educacionais, deverá constituir um fundamento necessário para levar a sociedade a agir de modo a respeitar esses valores, impulsionando desta forma a Geoconservação.

Discutiremos nesta entrada os principais valores atribuídos à geodiversidade:

O valor intrínseco

Este é subjetivo e de difícil quantificação, porque envolve perspetivas filosóficas, éticas e religiosas (Brilha, 2005). 
A ideia de valor intrínseco, no caso específico da geodiversidade, aponta para um valor próprio, de existência, algo que é inerente aos elementos abióticos independente de serem úteis ou não para o homem. O valor intrínseco constitui uma rejeição da visão antropocêntrica de que nada é de um valor a menos que seja de utilidade direta para os humanos e implica que as coisas não precisam necessariamente da aprovação do homem para justificar a sua existência (Sharples, 2002). Por mais que um determinado elemento se repita na  natureza, como um tipo de rocha ou uma forma de relevo, estes nunca serão exatamente iguais, seja pelos processos envolvidos na sua formação, na maneira como se apresentam, o local em que ocorrem, as influências que sofrem e que exercem no meio, etc. Neste caso a justificativa para sua conservação é o facto de tal componente da geodiversidade ser único e constituir um bom exemplo do seu tipo em determinada caraterística. Destruí-lo significaria uma grande perda do registo de um processo evolutivo de milhões de anos, ou, numa perspetiva cristã, algo que representa uma criação impossível de ser repetida.


Valor cultural

Diferente do valor intrínseco, o valor cultural da geodiversidade é muito mais facilmente percebido. Este valor é conferido pelo Homem quando se reconhece uma forte interdependência entre o seu desenvolvimento social, cultural e/ou religioso e o meio físico que o rodeia (Brilha, 2005). Segundo Gray (2004) estão incluídos neste valor os mitos e outras explicações com forte expressão mística ou religiosa associadas a aspetos geológicos, que aquele autor designa por folclore.
O valor cultural traduz-se num conjunto de aspetos geológicos com cariz cultural intangível, que possuem ou possuíram no passado, uma especial significação simbólica ou emocional para a sociedade (Castro, 2006).



Fonte: imagens google (stonehenge)


Valor estético

O valor estético tal como o valor intrínseco é subjetivo e difícil de quantificar, porque o conceito de ‘belo’ varia de pessoa para pessoa (Brilha, 2005). A experiência de apreciação estética está muito ligada à sensibilidade do ser humano, o qual capta cognitivamente os objetos que o rodeiam através dos seus sentidos, manifestando sentimentos de alegria, de prazer frente a estes, quer sejam de origem humana ou natural, atribuindo um valor afetivo, um valor estético, de forma a não enxergá-los somente pela sua utilidade, mas num plano contemplativo. Uma aplicação prática da apreciação estética é a observação de paisagens naturais, um ato instintivo e agradável que cada vez ganha mais adeptos.
A natural diversidade de paisagens e de materiais geológicos associados com o corpo de conhecimentos relativos à história da Terra e aos processos geológicos potencia o chamado geoturismo.


Fonte: imagens google (grand canyon) 


Valor económico

O reconhecimento da importância da geodiversidade para o desenvolvimento da Humanidade e atualmente para o progresso da sociedade tecnológica é um conceito a que todos nos habituamos desde muito cedo. Assim sendo, torna-se compreensível que os materiais geológicos, rochas, sedimentos, solos, água subterrânea, minerais e mesmo fósseis, usados como combustíveis ou matérias-primas, tenham um valor económico bem fundamentado, dependente das forças de oferta e procura existentes no mercado.
O valor económico é o mais objetivo e de fácil quantificação, uma vez que a sociedade já está habituada a dar valores aos bens e serviços utilizados.



Fonte: imagens google (diamante)


Valor funcional

O valor funcional reconhece o valor da geodiversidade em seu local de origem, ao contrário do valor económico, que só confere valor à geodiversidade após ela ser explorada (Brilha, 2005). O valor funcional tem sido raramente discutido na conservação da natureza, mas é claro que solos, sedimentos, relevo e rochas têm um papel funcional de sistemas ambientais físico e biológico. Por sua vez, podemos reconhecer duas subdivisões de valores funcionais: a primeira é o valor utilitário da geodiversidade in situ, ao contrário do valor extraído; e o segundo, refere-se ao valor funcional no fornecimento de substratos essenciais, habitats e processos abióticos que mantêm os sistemas físicos e ecológicos da superfície da Terra (Gray, 2004).



Fonte: imagens google (termalismo)


Valor científico e educativo

O Valor científico e educativo permite ao homem reconhecer e interpretar a história geológica da Terra, melhorando a relação entre o homem com a geodiversidade (Brilha, 2005). O ambiente físico é o laboratório para as pesquisas científicas e por vezes o único local que fornece um teste confiável sobre muitas teorias geológicas (Gray, 2004). O valor educativo da geodiversidade está relacionado à educação em Ciências da Terra e pode ocorrer tanto direcionado ao público formal (ensino básico e superior) quanto ao público informal (não escolar). 



Fonte: imagens google (trabalhos de campo em geociências)



AMEAÇAS À GEODIVERSIDADE

Não é ao acaso, que a evolução da civilização tem vindo a ser associada ao uso sucessivo de materiais geológicos, e efetivamente, ao longo dos tempos tem-se registado uma exploração e dependência humana dos recursos geológicos (Idade da Pedra, do Cobre, do Bronze e do Ferro; a Revolução Industrial assente nas enormes reservas de carvão; a dependência dos combustíveis fósseis no século XX; e atualmente, a “Idade do Silício”) (Pereira et al., 2008). A subsistência da espécie humana tem obrigado à utilização da geodiversidade, e em alguns casos à sua destruição (Brilha, 2005). Neste contexto, a maior parte das ameaças à geodiversidade (tal como à biodiversidade) advém, direta ou indiretamente, da atividade humana (Brilha, 2005).

O paradigma de desenvolvimento vigente (maior consumo = a maior desenvolvimento), o crescimento populacional (atualmente existem cerca de 7 biliões de pessoas, em 2050 estima-se que vão existir cerca de 9.2 biliões de pessoas), a mudança dos padrões de consumo que se verifica, entre outros, contribuem grandemente para ameaçar a geodiversidade.  E se a nossa trajetória atual de desenvolvimento prosseguir os padrões atuais de exploração dos recursos, será muito provável que o mundo continue a perder geodiversidade.

Brilha (2005) refere no seu livro “Património Geológico e Conservação: A Conservação da Natureza na sua Vertente Geológica”, um conjunto de ameaças à geodiversidade que têm origem antrópica:

Exploração de recursos geológicos

A obtenção dos mais variados materiais geológicos para uso humano, nomeadamente no nível de desenvolvimento e conforto das sociedades humanas, tem o seu impacte na geodiversidade, e podem ser de dois níveis: ao nível da paisagem (exemplo mais comum as explorações a céu aberto), ou ao nível do afloramento (a atividade extrativa pode consumir objetos geológicos como fósseis ou minerais; pode destruir formações e estruturas rochosas).
A atividade extrativa “pode ter impacto no decurso normal dos processos naturais” (Brilha, 2005).

Desenvolvimento de obras e estruturas

A atividade humana utiliza o meio envolvente para 'progredir', logo há um impacto diário e uma expansão constante da área ocupada, o desenvolvimento da tecnologia permitiu a construção em altura. Os muitos projetos de expansão urbana, a construção de vias de comunicação ou de infraestruturas, muitas vezes não tomam em devida conta a minimização de impactos ambientais. Deste modo, não é de estranhar que a construção humana esteja presente em áreas muito sensíveis do ponto de vista patrimonial natural ou cultural, e que poderiam estes ser um enorme atrativo turístico.

Gestão das bacias hidrográficas

As bacias hidrográficas sofreram com a ação humana nomeadamente para “regularização de caudais e prevenção de cheias” (Brilha, 2005) um impacto profundo na geodiversidade, verificando-se uma alteração na “dinâmica natural dos cursos de água” (ibidem).

Florestação, desflorestação e agricultura

O crescimento da vegetação constitui um fator que oculta as caraterísticas geológicas de determinada região, porém a desflorestação por via do homem, ou por via dos incêndios pode provocar erosão. A agricultura dita “tradicional” não tem impactos relevantes sobre a geodiversidade, mas a agricultura industrializada (maquinaria pesada e utilização excessiva de compostos químicos) é uma ameaça muito grande sobre os solos, e está em expansão tendo em conta as crescentes necessidades da humanidade (Brilha, 2005).

Atividades militares

As atividades militares (treino e ações bélicas) ocorre muitas vezes em locais sensíveis quer para a geodiversidade, quer para a biodiversidade. O uso de maquinaria pesada e de material bélico contribuem para o aumento de erosão dos solos e a utilização de munições podem ter consequências negativas para os solos e na qualidade da água superficial e subterrânea (Brilha, 2005).

As atividades recreativas e turísticas

O desenvolvimento do setor dos serviços na humanidade, nomeadamente as actividades recreativas e turísticas, também podem colocar a geodiversidade e a biodiversidade sob grande pressão, e como exemplo, serve a utilização de meios de transporte como viaturas todo o terreno em locais sensíveis e solos frágeis. Também visitas a grutas e atividades de escalada em certas áreas pode destruir as frágeis estruturas cársicas ou estabilidade da própria escarpa, respetivamente (Brilha, 2005).
A colheita de amostras geológicas para fins não científicos
Paradoxalmente, aquilo que nos permite conhecer melhor o mundo, também ajuda a destrui-lo, pois tal como Brilha indica “a formação de novos minerais, fósseis e rochas decorre a uma velocidade extremamente lenta à escala humana” já “a taxa de colheita de amostras é infinitamente superior à sua reconstituição” (Brilha, 2005:47)


A iliteracia cultural

Por último, Brilha (2005) alude a um grande problema que é a falta de informação numa sociedade apelidada da informação, pois paradoxalmente não há consciência crítica para a postura de geoconservação por quase toda a sociedade, inclusive dentro da classe dos geólogos. Assim é necessário introduzir estes temas na sociedade para que esta possa repensar algumas das acessões preconcebidas e refundá-las com outros valores.

Para concluir, refiro uma ideia que considero importante, se o Homem aspirar a travar o desequilíbrio ecológico, para o qual nas últimas décadas tem contribuído grandemente, terá de passar a olhar a Natureza como um todo, respeitando os seus componentes geológicos e biológicos e a encarar a sua conservação como uma nobre causa de todos os da sua espécie.

Partilho abaixo convosco dois vídeos extremamente interessantes acerca da geodiversidade em Portugal, e aguardo comentários.

Vídeo Geoportugal 1




Vídeo Geoportugal 2 -  https://www.youtube.com/watch?v=zJofmjPTeNU





Referências bibliográficas

Brilha, José (s.d.1). Património geológico: um novo modo de entender a conservação da natureza. IV Jornadas internacionais de Vulcanologia da Ilha do Pico. Acedido a 04.05.2013 em http://repositorium.sdum.uminho.pt/bitstream/1822/4892/1/pico.pdf

Brilha, José (s.d 2). A geoconservação e a educação para a sustentabilidade. Paisagens educativas. Acedido a 04.05.2013 em http://www.aspea.org/18ResumoGeoconservacao.pdf 

Brilha, José. (2005) Património Geológico e Conservação: A Conservação da Natureza na sua Vertente Geológica. Braga: Palimage Editores. Disponível em http://www.dct.uminho.pt/docentes/pdfs/jb_livro.pdf. Acedido a 6 de Maio de 2013.

Castro, I. (2006). Geodiversidade e seu Valor Educativo – Estudo de casos em contexto europeu. Dissertação de mestrado. Porto: Faculdade de Ciências da Universidade do Porto.
Declaração de Digne – Declaração Internacional sobre os Direitos da Memória da Terra. 1991. Acedido a 13.05.2013 em http://www.progeo.pt/pdfs/direitos.pdf

Gray, Murray (2004). Geodiversity valuing and conserving abiotic nature. John Wiley & Sons, Ltd, England. Disponível em: http://geoduma.files.wordpress.com/2010/02/geodiversity.pdf. Acedido a 12 de Maio de 2013.

Gray, Murray (2005). Geodiversity and Geoconservation: What, Why, and How?. The George Wright Forum. V.L. Santucci (Ed.). Volume 22, N.º 3, 4 – 12.

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Stanley, Mick. (2004). Geodiversity – linking people, landscapes and their culture. In Natural and Cultural Landscapes. The Geological Fundation, M. A.

Vídeo 1. Geoportugal 1.  Acedido a 15.05.2013 em http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=MFtqXAn8VN0

Video2. Geoportugal 2. Acedido a 15.05.2013 em https://www.youtube.com/watch?v=zJofmjPTeNU

sábado, 4 de maio de 2013

Caros leitores,


em breve iniciaremos a temática geodiversidade, espero que muitas partilhas interessantes possam surgir.

Até breve ;).